quarta-feira, 9 de julho de 2014

Capítulo #4

A reunião decorrera normalmente, deprimente como sempre. Não é que achasse mau, mas porque doía ver tanta gente a sofrer, isso simplesmente não era para mim.
Mas pronto. Era hora de procurar o André! Estava tão preocupada… Estaria apaixonada? Nãooooo! Filipa só o conheces há pouco tempo, não pode ser, não pode ser…

- Boa tarde! Tem visto o André? – Perguntei ao instrutor.
- O André? Qual André, Filipa?
- Não sei o segundo nome, mas é alto, tem um cabelo assim um pouco despenteado…
- Ah o André! Sim ele participa numa reunião em que sou instrutor. Mas porquê? – sorriu.

REUNIÃO? O QUÊ? Ele dissera que não participava em nenhuma…

- Em que reunião participa ele? Porque não vejo há uns dias, e ele não me responde às mensagens.
- Filipa, senta-te. – Disse, sentando-se também.

O meu coração acelerou. Será que ele estava bem?

- O André é uma pessoa muito doente. Ele sofre de um tumor, e está internado num hospital pois houve um problema e os médicos não sabem bem qual foi ainda.

Estava chocada, triste, paralisada, a tremer, a… não sei como descrever, não sei. Eu não podia acreditar no que acabara de ouvir. O André mentira-me é certo, mas o pior era saber que ele ocultara algo horrível.

- Sentes-te bem? – Perguntou o Francisco, o instrutor.
- Sim só… não esperava. – Disse apertando a minha mala.

Disse adeus, e caminhei até casa. Aquilo que ouvira o instrutor contar-me não me saía da cabeça… Nunca 
pensei numa coisa assim.
Mais tarde, estava deitada na minha cama e o meu telefone tocou.

- Estou? – Disse.
- Filipa linda…
- Oh meu Deus… André! – Disse num grito.
- Wow, estás feliz por me ouvir?
- Oh… Estás bem? O instrutor contou-me.
- Aquele Francisco! Estou a melhorar. Hoje vim para casa, agora mesmo aliás. Mas não te preocupes comigo, isto há-de passar. Mas tu estás bem? Senti saudades.

Não foste só tu, pensei.

- Ainda bem, fico feliz por isso! Eu estou bem, ultimamente tenho sentido diferenças na respiração mas não deve ser nada demais, de qualquer das maneiras, terei uma consulta daqui a duas semanas. Eu também senti, para ser sincera.
- Hm, boa sorte! Amanhã vamos fazer aquela saída que te prometi há uns dias, combinado?
- Claro!
- Então até amanhã. – Desligou.



Feliz, feliz, feliz, feliz. Começava a sentir-me viva. 

sábado, 5 de julho de 2014

Capítulo #3

Aquela sala era mesmo triste, não aguentava estar ali por mais que os meus pais achassem que era bom, aquilo deixava-me ainda mais deprimida. Mas, tinha uma saída com o André. Eu, Filipa Silva, tinha uma saída com um rapaz! Será que ele quereria algo mais? Só podia, um rapaz tão bonito nunca gostaria de uma rapariga tão…uma rapariga como eu.

- Alguém quer fazer-se ouvir? – Perguntou o instrutor.

Levantei-me.

- Eu queria dizer umas coisas…. – Disse com algum nervosismo.

Olharam para mim, e observaram-me com atenção.

- Não importa o quão triste pode parecer o momento, nem o quão parece impossível voltarem a ser felizes, o que importa é que estão aqui, e tudo mudará daqui para a frente, porque se há algo que isto nos ensina é que a vida vale alguma coisa, e viver com medo, com tristeza ou ódio a nós próprios não é viver, é sofrer. Um dia, tudo acaba, é certo, mas porque não acabar com um desenvolvimento de vida feliz certo? Pensei nisso, não vale a pena esta tristeza toda porque, vai passar, nós vamos ser felizes, todos nós, todas as pessoas que sofrem com algo, porque nós somos lutadores. – Disse com determinação, e soube-me tão bem dizê-lo. Boa Filipa.

Todos se levantaram e bateram palmas. Pela primeira vez vi alguns olhos brilharem, vi sorrisos e aquele manto de tristeza desapareceu por alguns segundos. Sentia-me bem, sentia-me mesmo bem.

- Muito bem Filipa! É bom ver esse espirito! – O instrutor sorria e olhava para mim com satisfação.

Quando acabara a reunião, dirigi-me à porta do centro, onde esperei pelo André. Uma, duas, três, quatro… As horas passavam e nada dele, não aparecia, não mandara mensagem e nem ligara. Será que só estava a brincar comigo? Hm, provavelmente, quem é que na sua perfeita consciência se metia numa saída ou relação comigo? Ninguém, definitivamente. Pensa Filipa, ninguém te quer, nem gorda nem magra.
Devido ao frio, estava com dificuldades em respirar devido ao meu problema e por isso resolvi sair dali, não adiantava, ele não iria aparecer. Caminhei até casa. Sentia-me cansada e com falta de ar, mas sobretudo, sentia-me rejeitada, gozada…Nem sei mais.

- Olá Filipa, está tudo bem querida? – Perguntou-me a minha mãe que estava sentada no sofá a ver televisão juntamente com o meu irmão mais novo.

- Olá… Sim está, vou para o quarto sim? É que estou muito cansada…

- Mas precisas de algo? Sentes-te bem? Queres algo? – Levantou-se do sofá num impulso e veio até mim.

- Não mãe… - Suspirei e subi para o meu quarto.

Quando é que aquilo iria parar? Sempre com perguntas, preocupações…etc. Tinha quase dezoito anos, já estava melhor, o que lhe preocupava mais? Nada, acho.
Deitei-me na cama, mas levantei-me de imediato pois lembrara-me de ir ver ao skype se o André lá estaria. André, André, André… Por favor diz-me que estás aqui. Aquele rapaz despertara algo em mim sem dúvida. A verdade é que nunca tinha tido nenhuma relação amorosa, nem nunca me tinha apaixonado ou dado um beijo por mais mínimo que fosse, a alguém. Comecei a rir-me de mim própria. Quantas raparigas com a minha idade nunca haviam feito tal coisa? Hmm, muito poucas certamente.
Finalmente, o skype ligara-se, mas… nada. O que se passa com o André? Será que não quer falar comigo ou assim? Nenhuma mensagem, nenhuma chamada, nenhum nada. Que parvoíce Filipa, pensa, ele não quer nada contigo, deixa-te de coisas.
Desci para jantar, e de minuto em minuto dava por mim a olhar para o telemóvel, à espera de um sinal, de algo que me dissesse que ele não se tinha esquecido de mim tal como eu não esquecera a ele, mesmo que só tivesse passado um dia após o conhecer.

- Filipa, está tudo bem? – Perguntou o meu pai, que me observava com um ar apreensivo.

- Hm está.

Antes de dormir, resolvi mandar-lhe uma mensagem: “Olá André… Desculpa se te incomodo, mas fiquei à tua espera hoje e nada… Está tudo bem? Beijo, Filipa.”.
Ansiosamente esperei meia hora por uma resposta, mas nada de nada. Parecia mesmo que o melhor era esquecer, e não o chatear mais. Com tantos pensamentos, acabei por adormecer. Na manhã seguinte, quando acordei, verifiquei de imediato o meu telefone, e… nada. Depois de tanto pensar. Determinei-me. Vou ao centro, e quando acabar a minha reunião eu vou procura-lo e se não o encontrar, vou procurar a sua mãe!


Eu tenho de saber dele. 

sexta-feira, 4 de julho de 2014

Capítulo #2

- Ahm… Desculpa! Sou tão distraída, não te vi… - Disse atrapalhadamente.
- Não tem mal nenhum. – Sorriu.

Observei-o enquanto ele se afastava. Era alto, moreno e tinha o cabelo um pouco desajeitado mas que lhe dava um toque bastante descontraído, os olhos não reparei devido à atrapalhação. O que será que um rapaz daqueles estaria aqui a fazer?
Continuei o meu caminho até à porta, o meu coração palpitava de nervos, o nó no meu estômago apertava, e as minhas mãos brancas e frias tremiam… Calma Filipa, calma.

- Boa tarde! Podes-te juntar ao círculo. – Disse um homem, que deveria ser o instrutor.

Sentei-me junto de uma rapariga que tinha um ar de sofrimento, como se estivesse prestes a morrer, aliás, acho que todos o tinham, incluindo eu.

- Vamos prosseguir com apresentações de membros novos…começando por… - disse enquanto apontava o dedo ao grupo, só rezava para que não me escolhesse. – Ti!

Pois, já devia estar à espera, quando eu não queria as coisas aconteciam. Levantei-me devagar e observei-os a todos acabando por fixar o meu olhar numa parede azul.

- Olá, chamo-me Filipa, tenho dezassete anos, sofri de anorexia e estou em recuperação. – Disse isto tão rápido que nem tive medo que não percebessem e me fizessem repetir.

- Olá Filipa. – Disse o grupo em coro.

Sentia uma sensação de que estava a ser observada por todos. Será que era assim tão mau? Hm, sim era. Sentei-me de novo.
Quando terminara a reunião, levantei-me rapidamente e andei apressadamente até à saída onde observei o individuo com quem tinha chocado antes da reunião, tenho de admitir que era deveras atraente, mas não me podia apaixonar, jamais alguém amaria alguém como eu, doente, triste e sem interesse.

- Olá. – Ouvi uma voz masculina.

Virei-me e vi que era dele.

- Olá… - Disse com uma voz baixa.

Ele aproximou-se e convidou-me a sentar nos degraus da entrada. Pensei duas vezes, mas algo me disse para me sentar.

- Então como te chamas?
- Filipa e tu?
- Chamo-me André! A que reunião do centro vais? – Sorriu. Como o seu sorriso era lindo.
- Vou à de distúrbios alimentares… Saí do hospital há pouco tempo e tu?

Olhou-me nesse preciso momento, parecia surpreso? Não via porquê, os meus ossos ainda eram visíveis.

- Mas estás melhor? Eu… Eu vim só dar uma coisa à minha mãe, ela trabalha aqui.
- Estou a melhorar. Ah está bem! Olha, eu tenho de ir para casa, os meus pais não querem que eu esteja muito tempo fora de casa… - Levantei-me e peguei na minha mala.
- Espero voltar a ver-te. – Disse, com um sorriso.

Enquanto ia para casa não parava de pensar no André. Seria normal? Aquele rapaz atraente e simpático tinha-me deixado feliz de certa maneira. Era uma estupidez, claro, acabara de o conhecer mas não me saía da cabeça.
Entrei em casa, e os meus pais estavam os dois na cozinha, certamente à espera da minha opinião sobre o centro.

- Filipa! Porque não me ligaste? Eu ia-te buscar. – Disse o meu pai num tom preocupado.
- Eu estou bem, calma. – Sentei-me na cadeira para descansar.

Sentaram-se também.

- Como correu filha?
- Correu bem, mas aquilo é demasiado… triste. – Sim, triste devia ser a única palavra para descrever aquilo, ou mesmo deprimente até.
Falamos durante um pouco sobre aquilo e quando acabei, dirigi-me ao quarto e fui ao skype ver se a Carolina estava on-line. Esta era a minha melhor amiga, e apoiara-me sempre em tudo. Um pedido no skype… André F… André F? André? ANDRÉ? Seria? Cliquei no perfil, para ver a fotografia, e um sorriso cresceu na minha cara… Mas como é que ele sabia o meu segundo nome? Não sei. Cliquei no aceitar e esperei que ele ficasse on-line.

*André F está agora on-line*

O meu coração saltou ao ver aquilo. Falo ou não falo? Não é melhor não, ainda pode pensar que fiquei caída por ele ou sei lá!

André F: Encontrei-te!

Ele mandou mensagem! Comecei a sorrir de imediato e respondi-lhe com a maior velocidade.

Filipa Silva: Como?!
André F: Cá tenho as minhas fontes. E nem foi difícil encontrar essa cara linda.

Senti as minhas bochechas a corar, e o meu coração a palpitar de felicidade.

Filipa Silva: Hm. Se o dizes. Olha dás-me o teu número?

O número? FILIPA! Acabas-te de conhecer este rapaz há umas horas e já lhe pedes o número? Ele vai pensar que és uma desesperada. Falava em voz alta comigo própria enquanto esperava por uma resposta.

André F: Amas-te me à primeira vista? Hahahaha. Dou sim.
Filipa Silva: Que piada! Mando-te mensagem para guardares o meu.
André F: Fico à espera! ;)  Vou sair, beijos!

Desliguei o computador e deitei-me na cama a pensar naquele momento. Será que ele tinha gostado de mim? Se calhar só quer ser simpático…
Antes de me deitar, enviei-lhe uma mensagem: “Olá André, sou eu, a Filipa. Este é o meu número. Vejo-te amanhã no centro? Boa noite, beijos.”.  Quando estava quase a fechar os olhos, ouvi o meu telefone a tocar.
 
- Estou? – Disse com uma voz sonolenta.
- Olá Filipa linda!

Filipa linda? Essa era nova.

- Olá André, não me mintas.
- Ignorando isso, queria que a menina Filipa se preparasse para uma saída depois da reunião no centro, o que acha? – Disse com uma voz de senhor que me fez rir.
- Acho que sim! Espero-te à porta quando acabar.
- Beijo.


Desliguei, e adormeci a sorrir. Seria bom ou mau?

quarta-feira, 2 de julho de 2014

Capítulo #1

As histórias tristes são normalmente suavizadas, nos filmes, nos livros, na televisão, etc. Na realidade, uma história triste não pode ser suavizada.

- Filipa? Filipa! – Ouvia a voz da minha mãe. – Estamos aqui para ti meu amor!

 Levantei com cuidado a cabeça, e abri os olhos. À minha frente estava o meu pai e o meu irmão mais novo. Que bom era vê-los.

- Como estás? – Perguntou o meu pai, enquanto tentava ajudar-me ajeitando a almofada.

Como estava? Não sabia responder a essa pergunta. Há duas semanas que me encontrava ali fechada naquele quarto branco, triste e com uma paisagem para o nada.

- Estou melhor, menos fraca. Disseram-me que aumentei um quilo e que está tudo a resultar bem. – Disse com uma voz rouca.

Há duas semanas, tinha dado entrada naquele hospital. Estava numa fase avançada de anorexia. Sim, deixara de comer diariamente, apenas comia um iogurte, mas sempre que podia vomitava-o. Até que há duas semanas, desmaiara, pois tinha demasiadas drogas no meu corpo e nenhum alimento. Foi uma sorte ficar bem, disseram os médicos.

- E hoje já vais para casa mana! – Gritou o Ricardo, o meu irmão.
- Ó Ricardo, não era para dizeres já!
- Vou mesmo? Vou sair deste sítio triste e deprimente? Vou ver o Chaz? Finalmente. – Não podia acreditar, ia para casa, finalmente ia sair dali.

Passadas umas horas, já estávamos a arrumar as minhas malas e eu estava-me a vestir e a preparar-me para voltar à minha vida normal, felizmente ainda era o primeiro período, poderia ainda aproveitar os dois próximos, já que neste, os resultados seriam um fracasso devido à minha falta de atenção e vontade de estudar.
Quando entrei no portão de casa, o Chaz correu de imediato para mim. Aquele canino era o sol da minha vida, ele era realmente importante, era o meu melhor amigo e estava comigo há dez anos.

- Chaaaaaaz! – Abracei-o, já que este era maior que eu.

Depois de me instalar no quarto, ouvi a minha mãe chamar-me à sala. Desci as escadas devagar pois ainda estava um pouco fraca e cansava-me facilmente devido a também ter um problema no sistema respiratório que afetava bastante a minha respiração.

- O que se passa? – Sentei-me no sofá e pus uma almofada nas minhas pernas.

Entreolharam-se, e sorriram olhando para mim.

- Filipa, temos uma novidade boa para ti! Encontramos um centro que te pode ajudar a ultrapassar isto, o que achas?

Um centro? Ajuda? Só imaginava, aqueles círculos em que as pessoas falavam sobre os seus problemas, e ajudavam-se umas às outras e etc. Não me parecia algo que iria gostar, mas iria fazer o esforço só para os ver felizes, depois de tudo o que se passou comigo, acho que não merecem sofrer mais com desilusões.

- Que bom, acho que poderia ir! – Disse, mesmo que essa não fosse a minha verdadeira vontade.
- Boa! Então amanhã levo-te lá à tarde, depois de almoço. Pode ser?
- Sim claro, obrigado pelo apoio. – Sorri.

Sorriram-me de volta e voltei ao meu quarto. Estava tão cansada, apesar de não ter feito praticamente nada, os medicamentos, o facto de estar fraca e a respiração estava mais afetada devido a tudo o que se passara, tudo isto contribuía para o meu cansaço. Por isso resolvi deitar-me cama. Pensei sobre tudo, sobre como seria voltar à escola, como seria o tal centro… Seria giro até? Não me parece. Mas pronto. Acabei por adormecer.

- Mana, mana, mana! – O Ricardo saltava vezes sem conta em cima da minha cama.

Abri os olhos e percebi que tinha dormido de ontem até hoje. Wow, tanto tempo, e nem acordara uma única vez. Fui até à casa de banho e voltei ao quarto onde me vesti. Desci as escadas e encontrei na mesa de refeição um prato com torradas e um copo com chá. Sentei-me e comi, que outra opção tinha? Ou comer ou voltar para o hospital. Comer era a melhor, sem dúvida.
Durante aquela manhã, visitei o meu tumblr e atualizei-o. Vi alguns programas na televisão e fiz companhia ao Chaz e ele a mim. Depois de almoço, o meu pai levou-me ao centro. Estava nervosa, será que ia correr bem? Será que…? Será que… Não Filipa, tudo acontecerá naturalmente!

- Boa tarde. – Disse à senhora da entrada.
- Boa tarde menina, a reunião é no fundo do corredor a segunda porta à esquerda. – Sorriu.

Percorri aquele corredor e ao virar à esquerda, dei um encontrão em alguém.


- Desculpa.