As histórias tristes são normalmente suavizadas, nos filmes,
nos livros, na televisão, etc. Na realidade, uma história triste não pode ser
suavizada.
- Filipa? Filipa! – Ouvia a voz da minha mãe. – Estamos aqui
para ti meu amor!
Levantei com cuidado
a cabeça, e abri os olhos. À minha frente estava o meu pai e o meu irmão mais
novo. Que bom era vê-los.
- Como estás? – Perguntou o meu pai, enquanto tentava
ajudar-me ajeitando a almofada.
Como estava? Não sabia responder a essa pergunta. Há duas
semanas que me encontrava ali fechada naquele quarto branco, triste e com uma
paisagem para o nada.
- Estou melhor, menos fraca. Disseram-me que aumentei um
quilo e que está tudo a resultar bem. – Disse com uma voz rouca.
Há duas semanas, tinha dado entrada naquele hospital. Estava
numa fase avançada de anorexia. Sim, deixara de comer diariamente, apenas comia
um iogurte, mas sempre que podia vomitava-o. Até que há duas semanas,
desmaiara, pois tinha demasiadas drogas no meu corpo e nenhum alimento. Foi uma
sorte ficar bem, disseram os médicos.
- E hoje já vais para casa mana! – Gritou o Ricardo, o meu
irmão.
- Ó Ricardo, não era para dizeres já!
- Vou mesmo? Vou sair deste sítio triste e deprimente? Vou
ver o Chaz? Finalmente. – Não podia acreditar, ia para casa, finalmente ia sair
dali.
Passadas umas horas, já estávamos a arrumar as minhas malas
e eu estava-me a vestir e a preparar-me para voltar à minha vida normal,
felizmente ainda era o primeiro período, poderia ainda aproveitar os dois
próximos, já que neste, os resultados seriam um fracasso devido à minha falta
de atenção e vontade de estudar.
Quando entrei no portão de casa, o Chaz correu de imediato
para mim. Aquele canino era o sol da minha vida, ele era realmente importante,
era o meu melhor amigo e estava comigo há dez anos.
- Chaaaaaaz! – Abracei-o, já que este era maior que eu.
Depois de me instalar no quarto, ouvi a minha mãe chamar-me
à sala. Desci as escadas devagar pois ainda estava um pouco fraca e cansava-me
facilmente devido a também ter um problema no sistema respiratório que afetava
bastante a minha respiração.
- O que se passa? – Sentei-me no sofá e pus uma almofada nas
minhas pernas.
Entreolharam-se, e sorriram olhando para mim.
- Filipa, temos uma novidade boa para ti! Encontramos um
centro que te pode ajudar a ultrapassar isto, o que achas?
Um centro? Ajuda? Só imaginava, aqueles círculos em que as
pessoas falavam sobre os seus problemas, e ajudavam-se umas às outras e etc.
Não me parecia algo que iria gostar, mas iria fazer o esforço só para os ver
felizes, depois de tudo o que se passou comigo, acho que não merecem sofrer
mais com desilusões.
- Que bom, acho que poderia ir! – Disse, mesmo que essa não
fosse a minha verdadeira vontade.
- Boa! Então amanhã levo-te lá à tarde, depois de almoço.
Pode ser?
- Sim claro, obrigado pelo apoio. – Sorri.
Sorriram-me de volta e voltei ao meu quarto. Estava tão
cansada, apesar de não ter feito praticamente nada, os medicamentos, o facto de
estar fraca e a respiração estava mais afetada devido a tudo o que se passara,
tudo isto contribuía para o meu cansaço. Por isso resolvi deitar-me cama.
Pensei sobre tudo, sobre como seria voltar à escola, como seria o tal centro…
Seria giro até? Não me parece. Mas pronto. Acabei por adormecer.
- Mana, mana, mana! – O Ricardo saltava vezes sem conta em
cima da minha cama.
Abri os olhos e percebi que tinha dormido de ontem até hoje.
Wow, tanto tempo, e nem acordara uma única vez. Fui até à casa de banho e
voltei ao quarto onde me vesti. Desci as escadas e encontrei na mesa de
refeição um prato com torradas e um copo com chá. Sentei-me e comi, que outra
opção tinha? Ou comer ou voltar para o hospital. Comer era a melhor, sem
dúvida.
Durante aquela manhã, visitei o meu tumblr e atualizei-o. Vi
alguns programas na televisão e fiz companhia ao Chaz e ele a mim. Depois de
almoço, o meu pai levou-me ao centro. Estava nervosa, será que ia correr bem?
Será que…? Será que… Não Filipa, tudo acontecerá naturalmente!
- Boa tarde. – Disse à senhora da entrada.
- Boa tarde menina, a reunião é no fundo do corredor a
segunda porta à esquerda. – Sorriu.
Percorri aquele corredor e ao virar à esquerda, dei um
encontrão em alguém.
- Desculpa.
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